Farol da Memória
Projetos Pã - Farol da Memória
Por Karlo Kardozo    Seg, 01 de Fevereiro de 2010 23:26

Entrelaçando o tempo e as diversas experiências

O Projeto “Farol da Memória” é um projeto de construção coletiva da memória do bairro Serviluz – Fortaleza-CE, através do teatro, literatura, artes visuais e mídias eletrônicas, Desenvolvendo um coletivo inter-geracional protagonizado por jovens e idosos os quais atuarão como “Agentes da Memória”, entrelaçando o tempo e as diversas experiências individuais e coletivas. A Companhia Pã desenvolverá o presente projeto em parceria com outras entidades que também atuam na comunidade do Serviluz.

O Projeto tem como objetivo principal contribuir para a construção e a conservação da memória da comunidade do SERVILUZ de Fortaleza-CE, viabilizada pela criação de um coletivo de jovens e idosos residentes no Bairro que atuarão como “Agentes da Memória”, através das técnicas de Contação de histórias em diálogo com as linguagens do teatro, da literatura, das artes visuais e das mídias eletrônicas nas ações desenvolvidas por este coletivo.

Para tanto se faz necessário:

• Realização de palestras sobre memória e história oral;

• Realização de oficinas de teatro dirigidas para a contação de história;

• Realização de oficinas de produção textual;

• Realização de oficinas de artes visuais com ênfase em vídeo, fotografia e histórias em quadrinho;

• Realização de oficinas de comunicação e novas mídias com foco na criação da revista eletrônica do projeto;

• Registro audiovisual em forma de entrevistas das experiências de vida dos moradores do Serviluz, seus costumes e hábitos;

• Produção de espetáculo de contação a partir dos relatos pessoais colhidos durante o processo de oficinas;

• Produção do site e revista eletrônica visando à publicação da produção escrita e audiovisual do coletivo;

• Publicação impressa das ações, textos e imagens do projeto;

• Realização oficina de auto-gestão e sustentabilidade.

 

Porque a Pã, Porque o Serviluz.

A Companhia Pã tem em seus objetivos estatutários a produção e a conservação da memória social da cidade de Fortaleza, a partir da construção de uma poética centrada na pluralidade e singularidade do homem. Para isso, A Companhia Pã busca desenvolver técnicas de pesquisa e produção de contação de história utilizando-se de múltiplos suportes e linguagens em suas produções e ações.

A Companhia Pã considera que a construção de uma poética deve ser precedida do desenvolvimento de uma ética na qual a memória coletiva de uma cidade é produto das relações dos diversos grupos sociais que a compõem.

Neste sentido, a Companhia Pã tem efetivado ações de caráter político-culturais nos bairros periféricos de Fortaleza, atualmente com foco no bairro Serviluz.

O Bairro do Serviluz não consta oficialmente na configuração urbana oficial de Fortaleza. A área, assim designada pelos moradores, inclui o Bairro do Cais do Porto e uma parte do Bairro Vicente Pinzon. Essa denominação tem origem no antigo Serviço de Energia e Força de Fortaleza, empresa geradora de energia elétrica extinta nos anos 60.

Com a construção do cais do porto e o processo de reorganização urbana da cidade de Fortaleza nos anos 50 e 60, a população formada em sua maioria por pescadores e prostitutas que habitavam a área que se tornaria a Avenida Beira-Mar, principal cartão postal da cidade, foram removidas para o entorno do Farol Velho. Esta população inicial, acrescida de diversas outras levas das migrações que se deram entre as décadas 70 e 80, oriundas do interior, constituíram a atual comunidade do Serviluz. Assim, a formação do bairro é resultante dos processos de tensão entre os movimentos sociais por moradias e serviços e a visão sanitarista e excludentes das elites representadas nos sucessivos governos municipais, estaduais e federais.

Parte da comunidade do Serviluz, O bairro do Cais do Porto tem um IDH baixíssimo (0,386) e um índice de analfabetismo que ultrapassa os 20%. Já a população total do Serviluz, apesar dos números não serem oficiais, gira em torno de 20 mil habitantes, segundo pesquisa de associações locais.

Nos meios de comunicação o Serviluz é sinônimo de violência, drogas e prostituição. Contudo, Apesar dos números e referências negativas, o bairro possui um enorme potencial paisagístico e é de extrema importância para a memória coletiva da cidade. Um exemplo disso, é o citado Farol Velho, cuja construção ainda de governo imperial data do meado do século XIX e está registrado em verso e prosa na memória do fortalezense.

Considerando este histórico e a atual conjuntura político-cultural, e atento para a conservação da memória local, para as novas visões que orientam as políticas públicas para juventude e para as diretrizes que orientam o Estatuto do Idoso (Lei 8.842), o projeto Farol da Memória objetiva promover os “Agentes da Memória” nas faixas etárias da juventude e da terceira idade, compreendendo para tanto, estes segmentos como construções sociais passiveis de leituras e reconstruções. Assim, como compreende a Companhia Pã, a juventude não é uma fase de preparação para uma vida adulta, mas um estado complexo de experimentação e construção de trajetórias. E o idoso, para além da visão capitalista de indivíduo que não participa diretamente do processo produtivo, mas detentor de uma dimensão humana capaz de modificar as relações com o mundo e com sua própria história.

Deste modo, o projeto propõe-se a desenvolver um trabalho inter-geracional onde as abordagens das aprendizagens experienciais servem de material para a construção de novos conhecimentos e de novos saberes. Assim, a contação de histórias proporciona entre as duas gerações essa troca de experiências significativas sedimentadas na memória de uma geração e os processos de narrativas de novas linguagens e suportes da outra.

Utilizar o poder das histórias de vida para conectar gerações, comunidades e principalmente diferentes níveis de poder na sociedade, é um passo essencial para o desenvolvimento pessoal, social e holístico do indivíduo para sua auto-compreensão como protagonista de sua história.

Este processo de encontros geracionais efetivados pelo diálogo entre contação, artes visuais e novas mídias,é favorecido também pelo encontro das linguagens próprias destas diferentes gerações. E deste processo,o projeto visa ao final haver contribuído para a formação dos “Agentes de Memória”, organizados em um“Coletivo de Memória do Serviluz” que terá como papel coletar, registrar, processar, publicar nessas diversas linguagens, a memória do bairro.

A construção deste coletivo visa à continuidade, a sustentabilidade e a auto-gestão do projeto Farol daMemória, que ao final do período de um ano deverá estar sob a gerência dos moradores do bairro Serviluz.

 

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